A história se repete?
Uma história numa cidade comum, com gente comum. Leia com calma.
Esta história fala de perseguição e violência.
Passo 1: Primeiro, escolhem um culpado
O país vem de anos de crise. Depois de uma eleição, um grupo de vizinhos passa a ser apontado como culpado pelos problemas de todos. Discursos e jornais repetem que “eles” são o inimigo e que todos precisam se defender deles.
Passo 2: Depois, fazem listas
Alguém organiza listas: que lojas são “deles”, que médicos, que advogados. Ninguém confere se a lista está certa. Quem entra nela passa a ser “um deles”.
Passo 3: Marcam as portas
Num dia combinado, as vitrines amanhecem pichadas com um símbolo e uma palavra, para todo mundo saber de quem é a loja. Algumas lojas que não estão na lista põem um cartaz avisando que o dono é “dos nossos”.
Passo 4: Ficam na porta
Homens param na frente das lojas marcadas, com cartazes: “Defenda-se! Não compre deles!”. Oficialmente é um protesto pacífico, mas há quem apanhe. Na maioria das portas nem é preciso: basta ficar ali, olhando quem entra.
Passo 5: Quem compra também vira alvo
Quem continua comprando nessas lojas é fotografado na porta, e as fotos saem no jornal. Uma coluna de leitores expõe, com nome e cidade, milhares de pessoas que compraram “deles” ou foram vistas sendo amigas “deles”.
Passo 6: Muita gente acha exagero
“É só um dia.” “É coisa de política, já passa.” Alguns entram na onda. A maioria não participa, mas também não diz nada. Uma parte compra de propósito nas lojas marcadas, para mostrar que não concorda.
Passo 7: As regras mudam, um pouco de cada vez
Os marcados são afastados dos empregos públicos. Aparecem placas de “não são bem-vindos” em restaurantes, lojas, piscinas e na entrada de vilarejos. Novas leis tiram deles a cidadania plena e dizem com quem podem casar. Cada passo é só um pouco pior que o anterior, e por isso parece aceitável.
Passo 8: As lojas vão fechando
Sem clientes e sob pressão, muitos donos vendem o negócio por 20% ou 30% do que vale, para quem nunca foi marcado. Em cinco anos, dois de cada três negócios “deles” fecharam ou mudaram de dono.
Passo 9: Uma noite, quebram tudo
Depois de anos ouvindo que “eles” são o problema, uma noite vira caos: vitrines quebradas, casas invadidas, templos queimados. Muitos agressores conhecem as vítimas: são vizinhos. Centenas morrem, cerca de 30 mil homens são presos, e as vítimas ainda são obrigadas a pagar pelos estragos.
Passo 10: Depois, marcam as pessoas
Os documentos ganham uma letra carimbada. Famílias perdem a casa e são obrigadas a morar juntas em prédios separados. Por fim, todos a partir dos seis anos têm de costurar um símbolo na roupa, para serem reconhecidos na rua.
Passo 11: E então, os trens
Os marcados recebem ordem de se apresentar com pouca bagagem. Trens saem da cidade. A maioria nunca volta.
Pare um instante.
Isso lembra alguma coisa? Em que lugar e em que época você acha que essa história aconteceu?
A resposta
Na Alemanha nazista, entre 1933 e 1945
Tudo o que você leu aconteceu de verdade e está documentado. O grupo marcado eram os judeus alemães. As listas, as vitrines pichadas, os homens na porta das lojas, as fotos de clientes no jornal, as placas, as leis, a noite das vitrines quebradas, o símbolo na roupa e os trens.
- 8 anos e meioentre o boicote às lojas (abril de 1933) e os primeiros trens (outubro de 1941)
- 6 milhõesde judeus assassinados no Holocausto, em toda a Europa
- Milhõesde outras vítimas: ciganos roma e sinti, pessoas com deficiência, poloneses, prisioneiros de guerra soviéticos, homossexuais, Testemunhas de Jeová e opositores políticos
E os primeiros a serem presos nem eram judeus. Em março de 1933, o primeiro campo de concentração, em Dachau, foi aberto para adversários políticos do regime. Perseguir quem pensava diferente foi o primeiro passo.
Cada passo, com data e fonte
- Janeiro de 1933Passo 1 · O culpado
Hitler vira chefe do governo. A propaganda nazista culpava os judeus pela crise econômica e pelos problemas do país.
Fonte: Enciclopédia do Holocausto: o boicote (abre fora do site)
- Março de 1933Passo 2 · As listas
Para preparar o boicote, os nazistas fizeram listas das lojas, dos consultórios e dos escritórios que consideravam ser de judeus.
Fonte: Enciclopédia do Holocausto: o boicote (abre fora do site)
- 1º de abril de 1933Passo 3 · As vitrines
Vitrines foram pichadas com a estrela de Davi e a palavra “Jude” (judeu). Lojas de não judeus puseram cartazes dizendo que eram de “alemães cristãos”.
Fonte: Enciclopédia do Holocausto: o boicote (abre fora do site)
- 1º de abril de 1933Passo 4 · Na porta
Tropas do partido nazista ficaram na porta das lojas, com cartazes como “Alemães! Defendam-se! Não comprem de judeus!”. O boicote era oficialmente pacífico, mas houve agressões.
Fonte: Enciclopédia do Holocausto: o boicote (abre fora do site)
- 1934 a 1939Passo 5 · Os clientes
Os piquetes fotografavam quem comprava de judeus, e as fotos saíam em página inteira no jornal nazista Der Stürmer. Uma coluna de “cartas de leitores” do mesmo jornal expôs mais de 6 mil pessoas, com nome e cidade.
Fonte: JTA, 13/08/1934 (abre fora do site) · Arquivo de Propaganda Alemã (Calvin University) (abre fora do site)
- 1933Passo 6 · A indiferença
Alguns alemães aderiram, outros ficaram olhando ou ignoraram. Um número considerável comprou de propósito nas lojas boicotadas.
Fonte: Enciclopédia do Holocausto: o boicote (abre fora do site)
- 1933 a 1935Passo 7 · As regras
Abril de 1933: lei afasta judeus do serviço público. Verão de 1935: placas de “judeus não são bem-vindos” em restaurantes, lojas e entradas de vilarejos. Setembro de 1935: as Leis de Nuremberg tiram a cidadania plena e proíbem casamento com não judeus.
Fonte: USHMM: lei de abril de 1933 (abre fora do site) · PBS: 1935 (abre fora do site) · Enciclopédia do Holocausto: Leis de Nuremberg (abre fora do site)
- 1933 a 1938Passo 8 · As lojas
Dos cerca de 100 mil negócios de judeus em 1933, dois terços tinham fechado ou sido vendidos em 1938, muitas vezes por 20% ou 30% do valor. Os nazistas chamavam isso de “arianização”.
Fonte: Enciclopédia do Holocausto: arianização (abre fora do site)
- 9 e 10 de novembro de 1938Passo 9 · A noite
A “Noite dos Cristais”: mais de 1.400 sinagogas incendiadas ou destruídas, milhares de lojas e casas depredadas, cerca de 30 mil homens levados para campos de concentração e centenas de mortos. Os judeus foram obrigados a pagar 1 bilhão de marcos.
Fonte: Enciclopédia do Holocausto: Noite dos Cristais (abre fora do site)
- 1938 a 1941Passo 10 · As marcas
Outubro de 1938: passaportes de judeus carimbados com um “J”. Abril de 1939: lei que permitiu juntar famílias judias em “casas de judeus”. Setembro de 1941: estrela amarela obrigatória na roupa a partir dos 6 anos.
Fonte: USHMM: passaportes (abre fora do site) · Fundação Alfred Landecker (abre fora do site) · Enciclopédia do Holocausto: a estrela (abre fora do site)
- Outubro de 1941Passo 11 · Os trens
Começam as deportações de judeus da Alemanha. Dos cerca de 522 mil judeus que viviam no país em 1933, entre 160 e 180 mil foram assassinados; a maioria dos outros só sobreviveu porque conseguiu fugir antes.
Fonte: USHMM: judeus alemães no Holocausto (abre fora do site) · Enciclopédia do Holocausto: número de vítimas (abre fora do site)
O que dizem os estudiosos
- Em resumo
Primeiro vem a fala de ódio. Ela faz as pessoas evitarem os vizinhos, o que facilita as leis de discriminação, que fazem os ataques parecerem normais. Cada degrau prepara o próximo.
Gordon Allport, psicólogo, em A natureza do preconceito (1954), explicando o que aconteceu na Alemanha
- Em resumo
Separar em “nós” e “eles” e pôr uma marca em quem é “deles” são os primeiros estágios. Eles são previsíveis, mas não inevitáveis: em cada um, dá para parar.
Gregory Stanton, fundador da Genocide Watch, nos “10 estágios do genocídio”
“O caminho para Auschwitz foi construído pelo ódio, mas pavimentado pela indiferença.”
Ian Kershaw, historiador do nazismo, no livro em que estudou o que os alemães comuns pensavam (1983)
- Em resumo
Alemães comuns contaram que cada passo era só um pouco pior que o anterior. Por isso nunca parecia a hora de reagir, até que era tarde.
Milton Mayer, jornalista, em Eles pensavam que eram livres (1955), com entrevistas feitas depois da guerra
“Os símbolos de hoje tornam possível a realidade de amanhã.”
Timothy Snyder, historiador, em Sobre a tirania (2017)
“Nunca, mas nunca, seja um espectador.”
Yehuda Bauer, historiador do Holocausto, no Parlamento alemão (1998)
O que isso tem a ver com Catalão
Um aviso importante
Não comparamos o que acontece em Catalão com o Holocausto. Nada se compara ao horror vivido por suas vítimas, e respeitamos essa memória.
O que comparamos são ideias e atitudes: tratar quem pensa diferente como inimigo, separar a cidade em “nós” e “eles”, fazer listas, marcar quem é “deles” e pedir que todos lhes virem as costas. A história mostra que é assim que ideias extremistas começam. Essas atitudes não pertencem a um país, a uma época ou a um partido, e merecem ser rejeitadas venham de onde vierem.
Não chamamos ninguém de nazista, e pedimos que ninguém faça isso. Criticamos a prática, não as pessoas.
Depois das eleições de 2026, começaram a circular em Catalão listas que marcam comerciantes e trabalhadores por suposta posição política, com pedidos para que ninguém compre deles. Chamamos isso pelo nome: discriminação por motivo político. Pode não ser crime por si só, mas vai contra um valor que a Constituição protege: ninguém deve perder direitos por causa de convicção política (art. 5º, VIII).
E lembra o primeiro degrau que os estudiosos descrevem. Comparamos só o começo do caminho, porque é ele que a história ensina a reconhecer. Quem conhece os primeiros degraus não espera chegar aos últimos.
Muita gente repassou uma lista sem pensar aonde isso pode levar. A porta está aberta: dá para parar agora, apagar, não repassar e voltar a comprar de quem trabalha. Catalão é uma cidade só.
Como parar no primeiro degrau
- Não espalhe listas nem marcasNem para criticar: repostar uma lista espalha os nomes de novo.
- Compre de quem foi marcadoEm 1933, comprar de propósito nas lojas boicotadas foi uma forma de resistir.
- Não seja espectadorFale com respeito, acolha quem foi atingido e mostre que a cidade não aceita.
- Ameaça ou pressão? Use a leiGuarde as provas e denuncie no canal certo.
“Aconteceu, e por isso pode acontecer de novo.”Primo Levi, sobrevivente de Auschwitz, em Os afogados e os sobreviventes (1986). Mas também pode ser parado, e é no começo que se para.
Fontes e como comparamos
Os fatos vêm principalmente da Enciclopédia do Holocausto, do Museu Memorial do Holocausto dos Estados Unidos, que tem versão em português. Seguimos o cuidado pedido pelo Museu do Holocausto de Curitiba (abre fora do site): comparar com base em fatos e com responsabilidade, sem usar o nazismo como xingamento contra quem pensa diferente.
- Enciclopédia do Holocausto: introdução ao Holocausto (abre fora do site)
- Enciclopédia do Holocausto: Dachau (abre fora do site)
- Genocide Watch: os 10 estágios do genocídio (em inglês) (abre fora do site)
- Gordon Allport, The Nature of Prejudice (1954), capítulo 1.
- Ian Kershaw, Popular Opinion and Political Dissent in the Third Reich (1983).
- Milton Mayer, They Thought They Were Free (1955).
- Timothy Snyder, Sobre a tirania (Companhia das Letras, 2017).
- Primo Levi, Os afogados e os sobreviventes (1986).
- Yehuda Bauer, discurso no Parlamento alemão, 27 de janeiro de 1998.
As frases de Allport, Stanton e Mayer foram resumidas por nós; as outras são traduções livres. Esta página compara atitudes e ideias, não pessoas nem sofrimentos.